Alveite Grande e a sua irmã Alveite Pequeno


Alveite Grande na Freguesia de S. Miguel de Poiares e Alveite Pequeno na Freguesia de Serpins.

O espírito de vizinhança resiste em várias povoações historicamente ligadas a Vila Nova de Poiares, apesar de espartilhadas desde o século XIX por concelhos limítrofes devido a sucessivas imposições administrativas. No Carvalho, no limite dos concelhos de Coimbra e Poiares, há famílias que passam a noite num município, mas já estão noutro, na mesma casa, quando de manhã tomam a primeira refeição. “Alguns dormem em Coimbra, mas tomam o pequeno-almoço, o almoço e o jantar em Poiares. Isto, às vezes, dá vontade de rir”, segundo o autarca Jaime Soares. Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares há 33 anos consecutivos, Jaime Soares, que também já foi deputado do PSD, tem exigido, sem sucesso, uma correcção dos “erros cometidos no passado”.

Alveite Grande está no concelho de Poiares. Mas o seu vizinho Alveite Pequeno, na freguesia de Serpins, pertence ao concelho da Lousã. No imaginário popular, são dois lugares irmanados pela encarnada pedra de Alveite, com que os artesãos esculpiram mós para produzir farinha, pias para animais beberem água e cantarias que decoram igrejas, casas e monumentos. Os habitantes de Alveite Pequeno constituem-se todos os anos em comissão, com os vizinhos poiarenses do Olho Marinho, para organizar a festa comunitária. Jaime Soares sonha ver um dia repostos os primitivos limites de Poiares. Preconiza um regresso quase patriótico às fronteiras de 1836, quando este município foi criado. Ao longo do século XIX, o concelho foi extinto duas vezes, “devido a vários jogos de interesses” protagonizados por políticos da época. “Espoliaram Poiares de uma grande superfície”, disse Jaime Soares à agência Lusa, indicando que “o concelho vinha com muito espaço a menos” ao ser restaurado definitivamente, em 1898. Em 1855, por exemplo, foram retiradas ao concelho de Santo André de Poiares as freguesias de Friúmes, Semide e parte da freguesia de Serpins, territórios que passaram para os municípios de Penacova, Miranda do Corvo e Lousã, respectivamente.

Outrora, segundo Joaquim Lima, de Alveite Pequeno, havia aqui uma taberna que “estava metade em Poiares e metade na Lousã”. “Dávamos dois passos dentro da taberna e estávamos em Poiares. Estamos numa ponta, já nem sabemos se pertencemos a um concelho ou ao outro”, refere o empresário, bem-humorado. Jaime Soares reconhece que “não será fácil” recuperar o território que pertenceu a Poiares na época do liberalismo. “As pessoas afirmam os valores da boa vizinhança, apesar da fronteira que as divide”, confirma. Residente no Carvalho, Fátima Vitorino tem parentes que moram na parte de Coimbra, enquanto “outros vivem no lado de Poiares”. Para esta técnica de serviço social, “é possível trabalhar diariamente no concelho de Poiares”, como é o seu caso, “e votar depois em Ceira”, concelho de Coimbra. Júlio Lourenço, que trabalha como motorista em Coimbra, recorda que o Centro Cultural do Carvalho, onde a população organiza bailes, foi propositadamente construído na linha divisória dos dois concelhos.
“Costumamos dizer que bebemos um copo em Poiares e vamos dançar a Coimbra!”, graceja.

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